Nessa Páscoa me nutri das
leituras: Fome de Deus de Frei Betto
e O Anticristo de Nietzsche. Como
ressurreto do cristianismo pela Teologia da Libertação me senti obrigado a
reler a obra de Nietzsche sob uma nova ótica. Um capítulo da obra de Frei Betto
é dedicado ao filósofo alemão filho de pastor protestante.
Nietzsche, filósofo que nasceu em
1844 faz na obra O Anticristo o que chama a
pior das acusações jamais pronunciadas por um acusado especialmente ao
apóstolo Paulo e o que chama de “continuação
do hebraísmo, o cristianismo”. A obra denominada por frei Betto como manifesto antipaulo é marcada com a afirmação que “o único cristão que existiu morreu na cruz”.
Nietzsche não poupa o apóstolo Paulo
e o responsabiliza, por criar “a mentira
da Ressurreição de Jesus”, incutir a crença na imortalidade para a formação
de rebanhos, ao “não colocar o peso da
vida na própria vida, mas sim no “além”, no nada, então retira-se da vida sua
importância”.
Apesar de refutar tal interpretação,
frei Betto confirma a posição de Paulo: “Sua
morte não é o fato central da fé cristã. O fato central é a ressurreição. Como
diz Paulo, não houvesse Jesus ressuscitado, a nossa fé seria vã”, porém frei
Betto faz uma releitura desse milagre e denuncia que essa “teologia” que Nietzsche se refere “fica a impressão de que a
solução dos problemas da Terra fica no Céu, e de lá derivam a prosperidade, a cura, o alívio. As dificuldades
pessoais e sociais devem ser enfrentadas, não pela política, mas pela autoajuda
(...)”, reduzindo a dimensão social do Evangelho. Assim, sob tal ótica os pobres, excluídos deste mundo, resta se
entregar às promessas de que serão incluídos, cobertos de bênçãos, no outro
mundo que se descortina com a morte.
Pelo contrário, Frei Betto
relembra que Jesus veio “para que todos
tenham vida e vida em abundância” (João 10,10) e que “às vésperas de sua morte, Jesus antecipou-nos sua ressurreição ao
dividir com seus discípulos, na ceia, o pão e o vinho”. O pão representa
todos os alimentos e bens essenciais à vida e a obra de frei Betto relata
exaustivamente esse “gesto característico de Jesus”.
Nietzsche também não poupa
críticas ao sacerdote, como enquanto for tido como “homem superior, esse negador, difamador, envenenador profissional da
vida”. Frei Betto critica na linha: “Essa religião, mais voltada à sua dilatação patrimonial que ao
aprimoramento do processo civilizatório, evita criticar o poder político para,
assim, obter dele benefícios: concessão de rádio e TV, recursos etc. Ajusta a
sua mensagem a cada grupo social que pretende alcançar.”.
A obra de Nietzsche é marcada
também por um paralelismo entre o cristianismo e o budismo, onde está detém
maior predileção do filósofo: “o budismo
nada promete porém cumpre; o cristianismo promete tudo mas não cumpre coisa
alguma”. Fome de Deus contém uma entrevista com frei Noé a respeito das
diferenças entre as tradições orientais e ocidentais: “Numa distinção meramente didática, (...). A espiritualidade
“mística” ignora a sociedade na qual se insere, enquanto a profética valoriza a
pessoa, o mundo e a história. A primeira vive uma relação a-histórica com o
Transcendente; a segunda contextualiza a relação com Deus. A “mística” dilui o
conceito de Deus em uma unidade indiferenciada; a profética reconhece um Deus
pessoal. A primeira favorece uma fuga do mundo; a segunda, a transformação do
mundo. A primeira reveste-se de um espírito monacal, que aceita tudo como
expressão da vontade divina; a segunda reveste-se de um espírito profético, discernindo
o justo do injusto. (...) Para a primeira, a salvação é concebida como fusão do
indivíduo no Absoluto; para a segunda, a salvação é escatológica, consuma a libertação
das pessoas e do mundo”.
Não há como deixar de reconhecer
a missão evangelizadora de libertação das pessoas e combater injustiças, por
ser demasiadamente grande, é evidente que enfrenta obstáculos e derrotas. A
derrota é uma marca da missão de transformar o mundo diria Che Guevara: “derrota após derrota até a vitória final”.
O cristianismo paga caro por encontrar resistências impostas pelo capitalismo
ao projeto do Reino de Deus. Essa atitude frente às consecutivas derrotas
distingue o cristão, pois ele se nutre de esperança. Frei Betto diz que “a esperança cristã não teme o negativo, as
vicissitudes históricas, o fracasso. É uma esperança crucificada, que se abre à
perspectiva da ressurreição. (...) A esperança vê o que existirá”.
Pelo ponto de vista da lógica
argumentativa, Nietzsche, faz uma generalização apressada de passagens bíblicas
que efetivamente não condizem com o núcleo da palavra de Jesus, assim
desqualificando parte da bíblia desqualifica o todo. Esta é a falácia do
acidente. Desta forma, Nietzsche age como um fundamentalistas às avessas “lê o texto fora do contexto, como se a
Bíblia tivesse a pretensão de normatizar não apenas a ética que rege todas as
dimensões da vida (...) o fundamentalista não sabe a linguagem simbólica da Bíblia,
rica em metáforas, recorre a lendas e mitos para traduzir o ensino religioso”
diria frei Betto.
Nietzsche ao menos reconhece que
Jesus era um criminoso político e que “isso
levou-o à cruz”, mas critica a posição de Jesus e o cristianismo como sendo
“a religião da compaixão”. Isso é
confirmado por frei Betto quando diz que “Nietzsche
apregoou a aniquilação dos perdedores” e isso é verdade: “O que é mais prejudicial do que qualquer
vício? A compaixão ativa para com todos os deficientes e fracos; o
cristianismo.” e ainda complementa “o
cristianismo tomou o partido de tudo aquilo que é fraco, baixo, deficiente;
construiu um ideal a partir da oposição ao instinto de sobrevivência de uma
vida forte (...)”
Não há análise crítica da
história para Nietzsche, e com isso legitima as forças existentes e a exploração
dos povos. Aliás, Nietzsche neste quesito não inova muito, já que era
contemporâneo de Herbert Spencer (1820-1903), o pai do Darwinismo social. Se
não há compaixão, os povos devem continuar a ser explorados. Nietzsche é contra
a formação do rebanho pelo sacerdote e pela igreja, mas não há linhas em sua
obra contra a formação dos rebanhos industriais da produção e do consumo.
Evidentemente que Nietzsche não
foi testemunha de grandes acontecimentos históricos que sucederam após sua morte, em
especial as revoluções movidas pelos sentimentos de compaixão com o próximo.
Morreu em 25 de agosto de 1900 o “filósofo
da exclusão”, na mesma data, 44 anos após, nasce Frei Betto.

