quinta-feira, 24 de abril de 2014

Diálogos entre Frei Betto e Friedrich Nietzsche

Nessa Páscoa me nutri das leituras: Fome de Deus de Frei Betto e O Anticristo de Nietzsche. Como ressurreto do cristianismo pela Teologia da Libertação me senti obrigado a reler a obra de Nietzsche sob uma nova ótica. Um capítulo da obra de Frei Betto é dedicado ao filósofo alemão filho de pastor protestante.



Nietzsche, filósofo que nasceu em 1844 faz na obra O Anticristo o que chama a pior das acusações jamais pronunciadas por um acusado especialmente ao apóstolo Paulo e o que chama de “continuação do hebraísmo, o cristianismo”. A obra denominada por frei Betto como manifesto antipaulo é marcada com a afirmação que “o único cristão que existiu morreu na cruz”.

Nietzsche não poupa o apóstolo Paulo e o responsabiliza, por criar “a mentira da Ressurreição de Jesus”, incutir a crença na imortalidade para a formação de rebanhos, ao “não colocar o peso da vida na própria vida, mas sim no “além”, no nada, então retira-se da vida sua importância”.

Apesar de refutar tal interpretação, frei Betto confirma a posição de Paulo: “Sua morte não é o fato central da fé cristã. O fato central é a ressurreição. Como diz Paulo, não houvesse Jesus ressuscitado, a nossa fé seria vã”, porém frei Betto faz uma releitura desse milagre e denuncia que essa “teologia” que Nietzsche se refere “fica a impressão de que a solução dos problemas da Terra fica no Céu, e de lá derivam a prosperidade, a cura, o alívio. As dificuldades pessoais e sociais devem ser enfrentadas, não pela política, mas pela autoajuda (...)”, reduzindo a dimensão social do Evangelho. Assim, sob tal ótica os pobres, excluídos deste mundo, resta se entregar às promessas de que serão incluídos, cobertos de bênçãos, no outro mundo que se descortina com a morte.

Pelo contrário, Frei Betto relembra que Jesus veio “para que todos tenham vida e vida em abundância” (João 10,10) e que “às vésperas de sua morte, Jesus antecipou-nos sua ressurreição ao dividir com seus discípulos, na ceia, o pão e o vinho”. O pão representa todos os alimentos e bens essenciais à vida e a obra de frei Betto relata exaustivamente esse “gesto característico de Jesus”.

Nietzsche também não poupa críticas ao sacerdote, como enquanto for tido como “homem superior, esse negador, difamador, envenenador profissional da vida”. Frei Betto critica na linha: “Essa religião, mais voltada à sua dilatação patrimonial que ao aprimoramento do processo civilizatório, evita criticar o poder político para, assim, obter dele benefícios: concessão de rádio e TV, recursos etc. Ajusta a sua mensagem a cada grupo social que pretende alcançar.”.

A obra de Nietzsche é marcada também por um paralelismo entre o cristianismo e o budismo, onde está detém maior predileção do filósofo: “o budismo nada promete porém cumpre; o cristianismo promete tudo mas não cumpre coisa alguma”. Fome de Deus contém uma entrevista com frei Noé a respeito das diferenças entre as tradições orientais e ocidentais: “Numa distinção meramente didática, (...). A espiritualidade “mística” ignora a sociedade na qual se insere, enquanto a profética valoriza a pessoa, o mundo e a história. A primeira vive uma relação a-histórica com o Transcendente; a segunda contextualiza a relação com Deus. A “mística” dilui o conceito de Deus em uma unidade indiferenciada; a profética reconhece um Deus pessoal. A primeira favorece uma fuga do mundo; a segunda, a transformação do mundo. A primeira reveste-se de um espírito monacal, que aceita tudo como expressão da vontade divina; a segunda reveste-se de um espírito profético, discernindo o justo do injusto. (...) Para a primeira, a salvação é concebida como fusão do indivíduo no Absoluto; para a segunda, a salvação é escatológica, consuma a libertação das pessoas e do mundo”.

Não há como deixar de reconhecer a missão evangelizadora de libertação das pessoas e combater injustiças, por ser demasiadamente grande, é evidente que enfrenta obstáculos e derrotas. A derrota é uma marca da missão de transformar o mundo diria Che Guevara: “derrota após derrota até a vitória final”. O cristianismo paga caro por encontrar resistências impostas pelo capitalismo ao projeto do Reino de Deus. Essa atitude frente às consecutivas derrotas distingue o cristão, pois ele se nutre de esperança. Frei Betto diz que “a esperança cristã não teme o negativo, as vicissitudes históricas, o fracasso. É uma esperança crucificada, que se abre à perspectiva da ressurreição. (...) A esperança vê o que existirá”.

Pelo ponto de vista da lógica argumentativa, Nietzsche, faz uma generalização apressada de passagens bíblicas que efetivamente não condizem com o núcleo da palavra de Jesus, assim desqualificando parte da bíblia desqualifica o todo. Esta é a falácia do acidente. Desta forma, Nietzsche age como um fundamentalistas às avessas “lê o texto fora do contexto, como se a Bíblia tivesse a pretensão de normatizar não apenas a ética que rege todas as dimensões da vida (...) o fundamentalista não sabe a linguagem simbólica da Bíblia, rica em metáforas, recorre a lendas e mitos para traduzir o ensino religioso” diria frei Betto.

Nietzsche ao menos reconhece que Jesus era um criminoso político e que “isso levou-o à cruz”, mas critica a posição de Jesus e o cristianismo como sendo “a religião da compaixão”. Isso é confirmado por frei Betto quando diz que “Nietzsche apregoou a aniquilação dos perdedores” e isso é verdade: “O que é mais prejudicial do que qualquer vício? A compaixão ativa para com todos os deficientes e fracos; o cristianismo.” e ainda complementa “o cristianismo tomou o partido de tudo aquilo que é fraco, baixo, deficiente; construiu um ideal a partir da oposição ao instinto de sobrevivência de uma vida forte (...)”

Não há análise crítica da história para Nietzsche, e com isso legitima as forças existentes e a exploração dos povos. Aliás, Nietzsche neste quesito não inova muito, já que era contemporâneo de Herbert Spencer (1820-1903), o pai do Darwinismo social. Se não há compaixão, os povos devem continuar a ser explorados. Nietzsche é contra a formação do rebanho pelo sacerdote e pela igreja, mas não há linhas em sua obra contra a formação dos rebanhos industriais da produção e do consumo.

Evidentemente que Nietzsche não foi testemunha de grandes acontecimentos históricos que sucederam após sua morte, em especial as revoluções movidas pelos sentimentos de compaixão com o próximo. Morreu em 25 de agosto de 1900 o “filósofo da exclusão”, na mesma data, 44 anos após, nasce Frei Betto.

domingo, 23 de março de 2014

Entre a Mística e a Revolução


Há dez mil vezes mais coincidências do cristianismo com o socialismo do que com o capitalismo.”
-Frei Betto, Fidel y la Religion


Minha primeira garrafa jogada ao mar é o meu reencontro com a religiosidade. É o relato de minha experiência pessoal de encontro ao MIRE. Acredito que várias pessoas possam se identificar.



Eu nasci sob a influência da religião católica. Minha avó, muito devota, era uma pessoa de fé inabalável. Apesar de nunca vivenciar a fé como ela, sabia que essa força espiritual existia, mas tal fé para mim era intangível.

Não sei o porquê, mas desde pequeno tive preocupações com o sofrimento alheio. Experiências pessoais e contato com alguns livros infantis podem ser a explicação para esse sentimento. Sei que quando criança Frei Betto tinha me presenteado com o livro OSPB - Introdução à política brasileira, esse pode ter sido a semente para minha consciência socialista. E, segundo o autor do livro “o socialismo é o nome político do amor”.

Li o livro, percebi que demonstrava com muita clareza a existência de desigualdades sociais causadas por decisões políticas. As decisões políticas que causavam desigualdades precisavam ser combatidas no campo sociopolítico para que o panorama de desigualdade social cessasse, consequentemente o sofrimento humano.

Eu me perguntava: Se Frei Betto é um frei significa que ele é um religioso. Se ele é um religioso, porque a mensagem que Frei Betto passava em seu livro não era o que a igreja de minha avó passava?

A pergunta se convertia em outra reflexão, uma vez que se presume que Deus queira o bem estar humano: Se a igreja prega a vontade de Deus, como eu nunca ouvi a igreja pregar combater a desigualdade e tudo que causa o sofrimento humano?  Sem poder responder essas perguntas minha fé se apagou.

O tempo foi passando, e após eu me firmar profissionalmente, decidi que queria fazer uma viagem. Como eu pregava ideias socialistas e defendia Cuba, para ter conhecimento de causa decidi que para lá seria o meu primeiro destino.

O pensamento socialista foi se impregnando com o curso do tempo e uma coisa que se mostrava muito forte é que o socialismo é incompatível com a crença em Deus, onde Marx afirmava que a religião causava desinteresse por questões políticas ou sociais (alienação).

Antes da viagem, deparo-me com o livro Fidel y la Religion, o livro é escrito por uma pessoa que conheço e admiro, sobre conversas de outra pessoa que tinha grande simpatia, o líder da Revolução Cubana. Não havia nada mais apropriado para ler e a primeira coisa que percebi que, na maioria dos casos, as elites põem à religião a seu serviço, mas não é todo o caso.


Fidel y la Religion permeava aproximações entre o cristianismo e o socialismo: a humildade, austeridade, espírito de sacrifício, amor ao próximo, combater os abusos, combater a injustiça, combater a humilhação do ser humano, ou seja, conteúdo da vida e de conduta de um revolucionário, como foi Jesus Cristo.

A Teologia da Libertação demonstra claramente que toda a existência de Jesus esteve em uma imersão no conflito ideológico, no terreno prático de sua época acerca das concepções e opções a favor ou contra os oprimidos.

Este conflito sempre esteve formado na divisão do Partido da Vida e no Partido da Morte. Cristãos e Fariseus. Tudo que gera mais vida, o gesto de amor e a revolução social está na linha do Projeto de Deus para a construção do Reino. Assim, a mensagem de Deus sela um projeto de conduta e sociedade do homem enquanto manifestação de carne e osso. Essa concepção é radicalmente oposta à ideia que o conceito de justiça só pode ser uma existir plenamente após a transcendência espiritual.

Não é a toa que passagens fundamentais da bíblia contêm a prática socialista: “tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me”[1]. A fome de um homem é uma ofensa ao próprio criador. A saciedade está associada à plenitude da vida.

A justiça sendo conteúdo central da evangelização dá sentido à palavra de Deus e o legitima como salvador e libertador, o Messias, aquele que através de seu exemplo de vida nos contagia como seguidores. Portanto, ser militante de causas sociais, de lutas pelos pobres e oprimidos é ser seguidor tanto de Che Guevara quanto de Jesus Cristo. A Teologia da Libertação é o elo entre a palavra de Deus e a prática revolucionária e o MIRE se propõe a isso.

As portas que se abrem, nunca mais fecham, e como dizem que Deus está presente inclusive em quem não tem fé, descobri que um miligrama de fé de antes permitiu voltar com força e significado.





[1] Mateus 25:35




sábado, 22 de março de 2014

Início do Blog do MIRE-RJ

Companheiros e companheiras que nos acompanham.

Hoje é um dia inauguração do Blog do movimento MIRE - Mística e Revolução do núcleo do Rio de Janeiro. Trata-se de um blog que tem por objetivo aproximar a militância do MIRE ao público desconhecido. Seremos garrafas jogadas ao mar. Cada garrafa possuirá uma mensagem. Cada mensagem terá um sentimento. Cada sentimento será fruto de uma experiência. Cada experiência é fruto de um fato da vida. 

A vida, por sua vez, se se submete a lei de Deus e a lei dos homens. Aos homens compete ditar somente a parte ponderável da vida através de sua organização política e social onde é possível melhorar ou piorar a qualidade da vida. Ao homem cabe lutar pela parte que lhe cabe no sentido de perpetuar a vida, no campo político através de práticas e atitudes reais. O imponderável advém da vontade de Deus, e apesar do homem não ter nenhuma ingerência, a vida ainda pode ser contemplada e entendida e a única forma disso acontecer é através da experiência coletiva.

O MIRE (Mística e Revolução) ao longo dos últimos dois anos tem dado passos importantes para a persecução dos nossos principais objetivos: a mística e a revolução.

A mística é entendida como um aprofundamento espiritual e este "não se trata de ouvir uma catequese sobre uma doutrina de difícil acesso ou de receber lições sobre certa visão secreta das coisas. Mas trata-se de fazer uma experiência religiosa comunitária." 

Onde está a a força que está presente na militância?

Essa força é gerada pelos vínculos sociais de pessoas comprometidas com as outras. Trata-se do poder da empatia que é a capacidade de se identificar emocionalmente com outras pessoas e seus problemas. A militância do MIRE busca compreender os problemas sociais, propondo reflexões de problemas concretos e contribuição para as questões propostas.

A partir da empatia é que se pode verdadeiramente ajudar o outro. Che Guevara estava certo "todo revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor". Portanto, é o amor pela existência de uma pessoa que sequer se conhece, é o que possibilita a prática revolucionária, ou seja, prática de transformações radicais e progressistas.

E onde está o ponto de interseção entre a mística e a revolução?

Este será o tema do próximo post. Até lá.