domingo, 23 de março de 2014

Entre a Mística e a Revolução


Há dez mil vezes mais coincidências do cristianismo com o socialismo do que com o capitalismo.”
-Frei Betto, Fidel y la Religion


Minha primeira garrafa jogada ao mar é o meu reencontro com a religiosidade. É o relato de minha experiência pessoal de encontro ao MIRE. Acredito que várias pessoas possam se identificar.



Eu nasci sob a influência da religião católica. Minha avó, muito devota, era uma pessoa de fé inabalável. Apesar de nunca vivenciar a fé como ela, sabia que essa força espiritual existia, mas tal fé para mim era intangível.

Não sei o porquê, mas desde pequeno tive preocupações com o sofrimento alheio. Experiências pessoais e contato com alguns livros infantis podem ser a explicação para esse sentimento. Sei que quando criança Frei Betto tinha me presenteado com o livro OSPB - Introdução à política brasileira, esse pode ter sido a semente para minha consciência socialista. E, segundo o autor do livro “o socialismo é o nome político do amor”.

Li o livro, percebi que demonstrava com muita clareza a existência de desigualdades sociais causadas por decisões políticas. As decisões políticas que causavam desigualdades precisavam ser combatidas no campo sociopolítico para que o panorama de desigualdade social cessasse, consequentemente o sofrimento humano.

Eu me perguntava: Se Frei Betto é um frei significa que ele é um religioso. Se ele é um religioso, porque a mensagem que Frei Betto passava em seu livro não era o que a igreja de minha avó passava?

A pergunta se convertia em outra reflexão, uma vez que se presume que Deus queira o bem estar humano: Se a igreja prega a vontade de Deus, como eu nunca ouvi a igreja pregar combater a desigualdade e tudo que causa o sofrimento humano?  Sem poder responder essas perguntas minha fé se apagou.

O tempo foi passando, e após eu me firmar profissionalmente, decidi que queria fazer uma viagem. Como eu pregava ideias socialistas e defendia Cuba, para ter conhecimento de causa decidi que para lá seria o meu primeiro destino.

O pensamento socialista foi se impregnando com o curso do tempo e uma coisa que se mostrava muito forte é que o socialismo é incompatível com a crença em Deus, onde Marx afirmava que a religião causava desinteresse por questões políticas ou sociais (alienação).

Antes da viagem, deparo-me com o livro Fidel y la Religion, o livro é escrito por uma pessoa que conheço e admiro, sobre conversas de outra pessoa que tinha grande simpatia, o líder da Revolução Cubana. Não havia nada mais apropriado para ler e a primeira coisa que percebi que, na maioria dos casos, as elites põem à religião a seu serviço, mas não é todo o caso.


Fidel y la Religion permeava aproximações entre o cristianismo e o socialismo: a humildade, austeridade, espírito de sacrifício, amor ao próximo, combater os abusos, combater a injustiça, combater a humilhação do ser humano, ou seja, conteúdo da vida e de conduta de um revolucionário, como foi Jesus Cristo.

A Teologia da Libertação demonstra claramente que toda a existência de Jesus esteve em uma imersão no conflito ideológico, no terreno prático de sua época acerca das concepções e opções a favor ou contra os oprimidos.

Este conflito sempre esteve formado na divisão do Partido da Vida e no Partido da Morte. Cristãos e Fariseus. Tudo que gera mais vida, o gesto de amor e a revolução social está na linha do Projeto de Deus para a construção do Reino. Assim, a mensagem de Deus sela um projeto de conduta e sociedade do homem enquanto manifestação de carne e osso. Essa concepção é radicalmente oposta à ideia que o conceito de justiça só pode ser uma existir plenamente após a transcendência espiritual.

Não é a toa que passagens fundamentais da bíblia contêm a prática socialista: “tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me”[1]. A fome de um homem é uma ofensa ao próprio criador. A saciedade está associada à plenitude da vida.

A justiça sendo conteúdo central da evangelização dá sentido à palavra de Deus e o legitima como salvador e libertador, o Messias, aquele que através de seu exemplo de vida nos contagia como seguidores. Portanto, ser militante de causas sociais, de lutas pelos pobres e oprimidos é ser seguidor tanto de Che Guevara quanto de Jesus Cristo. A Teologia da Libertação é o elo entre a palavra de Deus e a prática revolucionária e o MIRE se propõe a isso.

As portas que se abrem, nunca mais fecham, e como dizem que Deus está presente inclusive em quem não tem fé, descobri que um miligrama de fé de antes permitiu voltar com força e significado.





[1] Mateus 25:35




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