“Há dez mil
vezes mais coincidências do cristianismo com o socialismo do que com o
capitalismo.”
-Frei Betto,
Fidel y la Religion
Minha primeira
garrafa jogada ao mar é o meu reencontro com a religiosidade. É o relato
de minha experiência pessoal de encontro ao MIRE. Acredito que várias pessoas
possam se identificar.
Eu nasci sob a influência da religião católica. Minha avó, muito devota, era uma pessoa de fé inabalável. Apesar de nunca vivenciar a fé como ela, sabia que essa força espiritual existia, mas tal fé para mim era intangível.
Não sei o porquê, mas desde pequeno tive preocupações com o sofrimento alheio. Experiências pessoais e contato com alguns livros infantis podem ser a explicação para esse sentimento. Sei que quando criança Frei Betto tinha me presenteado com o livro OSPB - Introdução à política brasileira, esse pode ter sido a semente para minha consciência socialista. E, segundo o autor do livro “o socialismo é o nome político do amor”.
Li o livro, percebi que demonstrava com muita clareza a existência de desigualdades
sociais causadas por decisões políticas. As decisões políticas que causavam
desigualdades precisavam ser combatidas no campo sociopolítico para que o
panorama de desigualdade social cessasse, consequentemente o sofrimento humano.
Eu me perguntava: Se Frei Betto é um frei significa que ele é um
religioso. Se ele é um religioso, porque a mensagem que Frei Betto passava em
seu livro não era o que a igreja de minha avó passava?
A pergunta se convertia em outra reflexão, uma vez que se presume que
Deus queira o bem estar humano: Se a igreja prega a vontade de Deus, como eu
nunca ouvi a igreja pregar combater a desigualdade e tudo que causa o
sofrimento humano? Sem poder responder
essas perguntas minha fé se apagou.
O tempo foi passando, e após eu me firmar profissionalmente, decidi que
queria fazer uma viagem. Como eu pregava ideias socialistas e defendia
Cuba, para ter conhecimento de causa decidi que para lá seria o meu primeiro
destino.
O pensamento socialista foi se impregnando com o curso do tempo e uma
coisa que se mostrava muito forte é que o socialismo é incompatível com a
crença em Deus, onde Marx afirmava que a religião causava desinteresse por
questões políticas ou sociais (alienação).
Antes da viagem, deparo-me com o livro Fidel y la Religion, o livro é escrito por uma pessoa que conheço e
admiro, sobre conversas de outra pessoa que tinha grande simpatia, o líder da Revolução Cubana. Não
havia nada mais apropriado para ler e a primeira coisa que percebi que, na
maioria dos casos, as elites põem à religião a seu serviço, mas não é todo o
caso.
Fidel y la Religion permeava aproximações entre o cristianismo e o socialismo: a humildade,
austeridade, espírito de sacrifício, amor ao próximo, combater os abusos,
combater a injustiça, combater a humilhação do ser humano, ou seja, conteúdo da
vida e de conduta de um revolucionário, como foi Jesus Cristo.
A Teologia da Libertação demonstra claramente que toda a existência de
Jesus esteve em uma imersão no conflito ideológico, no terreno prático de sua
época acerca das concepções e opções a favor ou contra os oprimidos.
Este conflito sempre esteve formado na divisão do Partido da Vida e no
Partido da Morte. Cristãos e Fariseus. Tudo que gera mais vida, o gesto de amor
e a revolução social está na linha do Projeto de Deus para a construção do
Reino. Assim, a mensagem de Deus sela um projeto de conduta e sociedade do
homem enquanto manifestação de carne e osso. Essa concepção é radicalmente
oposta à ideia que o conceito de justiça só pode ser uma existir plenamente após a transcendência
espiritual.
Não é a
toa que passagens fundamentais da bíblia contêm a prática socialista: “tive
fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e
hospedastes-me”[1].
A fome de um homem é uma ofensa ao próprio criador. A saciedade está associada à
plenitude da vida.
A justiça sendo conteúdo central da evangelização dá sentido à palavra
de Deus e o legitima como salvador e libertador, o Messias, aquele que através
de seu exemplo de vida nos contagia como seguidores. Portanto, ser militante de
causas sociais, de lutas pelos pobres e oprimidos é ser seguidor tanto de Che Guevara quanto de Jesus Cristo. A
Teologia da Libertação é o elo entre a palavra de Deus e a prática
revolucionária e o MIRE se propõe a isso.
As portas que se abrem, nunca mais fecham, e como dizem que Deus está
presente inclusive em quem não tem fé, descobri que um miligrama de fé de antes permitiu voltar com força e
significado.


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